Minha opinião
Eu tomei conhecimento desse livro depois dele ter ficado gratuito na época das hashtags Black lives matter (Vidas negras importam). Uma amiga compartilhou dizendo que ficou entre os mais adquiridos. Eu a conheço como Angélica Menchini ou Lica, mas ela é popularmente conhecida como Limão, a ilustradora desse livro.
Fiquei chateada por não ter visto o anúncio de quando estava gratuito para poder divulgar porque vez ou outra eu estou exaltando o trabalho lindíssimo da Limão, mas fui lá e adquiri o meu para dar aquele apoio e vocês não sabem o quanto fiquei surpresa com essa antologia.
Primeiramente é inevitável não falar um pouco de mim antes de falar propriamente do livro. Essa na montagem de foto com cabelos coloridos sou eu, prazer. Vocês já me viram por aí mas não me conheceram no auge dos cabelos coloridos. Tá, mas o que isso tem a ver, Amanda?
Uma das primeiras vezes que pintei meu cabelo com uma cor fantasia foi lá pelos meus 17 anos. Só as pontinhas de azul. E assim que cheguei no cursinho pré-vestibular eu ouvi que aquilo era coisa para cabelo liso e por vezes eu ouvia elogios ao meu cabelo somente quando o alisava. E com isso acabei fazendo alguns procedimentos para alisamento no cabelo até cansar e deixá-lo como ele realmente é.
Eu achei que tudo isso tinha ficado no passado. Eu sinto muito orgulho do meu cabelo e vibro quando alguém diz que está em transição capilar, mas dia desses conversando com meu namorado eu falei que talvez não me adaptaria em países asiáticos porque talvez ficariam olhando pra mim por causa da cor e do cabelo que difere muito deles e me sentiria incomodada como me senti na adolescência. E foi ali que eu percebi que eu tinha mais cicatrizes no meu modo de pensar que eu imaginava.
E onde entra o livro e a resenha nisso? Bem, esse livro revirou tantos sentimentos de mim e virou uma indicação mais que necessária para todos. Porque para quem passa por coisas semelhantes é um prato cheio de representatividade e você sentir que não está sozinho (a) e para quem não passa refletir sobre as atitudes que toma.
"É urgente que a gente aceite e celebre essas histórias que são tão ricas e dão às mulheres negras, principalmente jovens e crianças, a possibilidade de ser quem elas querem ser."
Trecho do prefácio por Ana Rosa
O livro começa com o conto "Coincidências" da autora Maria Ferreira e não consigo pensar em outra expressão para colocar aqui, mas olha, que tapa na cara eu tomei lendo esse conto. Porque eu posso já ter me sentido deslocada em relacionamentos por diferenças econômicas, mas nunca pela cor da pele, e ver todas aquelas palavras ali me deixaram muito mal em saber que na verdade aquilo ali não é somente ficção, e certamente acontece e muito na vida real.
"Naquele momento, percebi o motivo de Pedro ter me abandonado. Foi como uma epifania. A grande ficha caiu. E eu poderia culpá-lo?"
O segundo conto se chama "Carimbos e Memórias" e é da autora Flor, Priscila que se inspirou em nada mais, nada menos que a maravilhosa jornalista Glória Maria. E como eu me emocionei nesse conto, gente, pois se hoje em dia as coisas já são bem difíceis, imagina quando não tínhamos uma única jornalista negra na TV como inspiração? Lindo e extremamente sensível.
"O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças."
"Não existem sinônimos suficientes para futuro" de Isa Souza e Pétala Souza é um conto de distopia, algo que eu não esperava encontrar no livro. Embora seja uma distopia sustentada por uma mentira sobre um vírus, ela tem muitos elementos reais: A segregação, a falta de representatividade nos jovens ditos como "o futuro", nas diferenças econômicas e visuais das diferentes zonas e o poder do povo unido para vencer isso. Um conto muito rico de detalhes, aprendizado e com referências a mulheres negras.
"A verdade é correnteza, arranca das profundezas e traz a superfície até os pensamentos e sentimentos que jamais deixamos emergir."
"Na ponta dos sonhos" da autora Amanda Condasi é possivelmente um dos mais emocionantes. Não sei se por identificação pela origem humilde e a luta dos pais para veem a protagonista vencer, mas me vi com os olhos cheios de lágrimas lendo. Nele, conhecemos o trajeto de Dandara para se tornar bailarina depois de na infância encontrar uma sapatilha de balé garimpando o lixão com a mãe. A partir desse singelo encontro com aquela sapatilha, o balé se torna um sonho e não vai ser nada fácil realizá-lo.
"A maioria das fotos é de mulheres e homens negros dançando e o que achei curioso são suas sapatilhas, todas pintadas do tom de pele de cada um."
Eu recomendo demais que todos leiam esse livro, até para enxergar o mundo com outros olhos. Além dos contos que me tocaram profundamente, as ilustrações da Limão arrematam tudo de uma forma incrível e por mais que eu seja suspeita por ser fã do trabalho dela, vocês podem ver que eu tenho razões para vangloriar esse trabalho pela ilustração na capa do livro e a de "Vidas Negras importam" que coloquei na foto apenas para dar um gostinho.
Ah! E haverá um evento online no canal do YouTube do Se liga Editorial para o lançamento virtual do livro com as autoras, a ilustradora e mediação de Thati Machado no dia 04/07 às 20h.
Você pode adquirir o livro aqui. É apenas R$9,99 para comprar e o aprendizado é imensurável, mas caso você tenha Kindle Unlimited, ele é gratuito.
Por Amanda Rocha