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Resenha: O gato preto - Edgar Allan Poe

Conto: O gato preto
Autor: Edgar Allan Poe
Páginas23
Nota:⭐⭐⭐⭐+ 🧡


Sinopse

O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, é um dos seus contos horríficos mais conhecidos. Autor multiexperimental, Edgar Allan Poe é um dos mais relevantes autores norte-americanos do século XIX, e escreveu esta "short-story" - área em que Poe era extremamente hábil – para o provar, criando um ambiente fantasioso de sequência de eventos que levam a um estranho e escabroso crime.


Minha opinião

Priscila e meu namorado sempre me recomendaram conhecer o trabalho do Edgar Allan Poe, mas por algum motivo eu sempre acaba adiando, acho que por medo de ser uma leitura datada e com uma escrita mais complexa. No entanto, eu estava completamente errada.

Edgar Allan Poe conseguiu fazer um conto atemporal e aterrorizante. Ele é narrado em primeira pessoa por um homem que relata seu amor por animais desde a infância e com sorte arranja uma esposa que compartilha desse mesmo amor.

No entanto, conforme a idade vai avançando e seus problemas alcoólicos surgem e com ele vem os ataques de fúria. Seu amor pelos animais se esvai, ele se vê irritado com seu gato e em uma certa noite desconta toda sua ira com crueldade no pobre gato.

Só que ele não sabia a desgraça que se abateria na vida dele após esse ato de crueldade. Nem todo arrependimento do mundo o salvaria do que estava por vir. E bem, pra isso vocês terão que ler o conto para saber o que acontece porque não quero entregar toda a trama aqui, mas já adianto que Poe conseguiu criar uma atmosfera bem angustiante em tão poucas páginas.

O conto foi lido na Literatona Halloween como um clássico do terror e merece todos os elogios recebidos e o título de clássico. Poe foi um dos escritores pioneiros de contos e é conhecido como o criador da ficção policial, até hoje serve de inspiração para muitos autores e certamente ganhou mais uma fã.

Caso queiram ler o conto, já o postamos aqui no blog, acesse aqui.

O conto também está presente no livro Medo Clássico Volume 1 que também já foi resenhado aqui.

Conto indispensável para quem é amante do terror.

Por Amanda Rocha

 


 

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Especial Halloween: Edgar Allan Poe


Dia 31 de Outubro, Halloween, e nada melhor do que falar do mestre do terror: Edgar Allan Poe.
Preparamos um especial para vocês.

Uma breve biografia

Edgar Allan Poe nasceu em Boston, Massachusetts nos Estados Unidos em 19 de Janeiro de 1809.
Ele nasceu Edgar Poe, mas isso mudaria após a mãe morrer logo após o pai o abandonar e ele ser acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan. Poe frequentou a faculdade por um semestre, mas sempre ficava perdido entre bebidas e mulheres.

Curiosidades

- Poe foi casado com a prima, que na época tinha apenas 13 anos.

- Serviu as forcas armadas durante 2 anos.

- Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreiras financeiramente difíceis.

- Começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido.

- Até hoje não se tem certeza da causa de sua morte tão prematura, aos 40 anos, mas foi atribuídas a agentes como: álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovascularesraiva, suicídio e tuberculose.

- É considerado o primeiro escritor a escrever sobre literatura policial e seu “detetive”, Dupin, serviu de inspiração para escritores como Agatha Christie e Arthur Conan Doyle.

Principais obras (em minha opinião)

Poema

- O corvo

Contos

- Manuscrito encontrado numa garrafa

- Berenice

- Ligeia

-  A Queda da Casa de Usher

- William Wilson

-  Os Assassinatos da Rua Morgue

-  A Máscara da Morte Rubra 

-  O Gato Preto

-  O Barril de Amontillado

- Hop-Frog ou Os Oito Orangotangos Acorrentados

- Nunca aposte sua cabeça com o diabo

- A verdade no caso do Sr, Valdemar

- O coração delator

-  O Mistério de Marie Rogêt

- A carta roubada

Espero que tenham gostado e que possam passar esse Dia das Bruxas lendo muito terror, um de nossos gêneros favoritos.

Feliz dia das bruxas!

Por Priscila Biancardi

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Especial Edgar Allan Poe: Seleção de contos - parte 2

Dando continuação a seleção de contos favoritos do Edgar Allan Poe, hoje trouxemos o conto "Nunca aposte sua cabeça com o diabo", de 1841.


Nunca aposte sua cabeça com o diabo


“Con tal que las costumbres de un autor” — diz D. Tomás de las Torres, no prefácio de seus Poemas Amorosos —, “sean puras y castas, importa muy poco que no sean igualmente severas sus obras”, querendo dizer, em puro inglês, que, contanto que seja pessoalmente pura a moral de um autor, nada significa a moral de seus livros. Achamos que D. Tomás se encontra agora no Purgatório, por causa dessa afirmativa. Seria também coisa inteligente, no que concerne à justiça poética, conservá-lo ali, até que seus Poemas Amorosos saiam do prelo ou sejam definitivamente abandonados nas estantes por falta de leitores. Toda obra de ficção deveria ter uma moral; e, o que vem mais a propósito, os críticos já descobriram que toda ficção a tem. Filipe Melanchton escreveu, há algum tempo, um comentário sobre a Batraquiomiomaquia e provou que o objetivo do poeta era suscitar o desgosto pela sedição. Pierre La Seine, dando um passo mais adiante, mostra que a intenção era recomendar aos jovens a temperança no comer e no beber. Da mesma forma, também, Jacobus Hugo se convenceu de que, com Euenis, queria Homero insinuar a figura de João Calvino; com Antinous, a de Martinho Lutero; com os Lotófagos, os protestantes, em geral, e com as Hárpias, os holandeses. Nossos mais modernos escoliastas são igualmente agudos. Esses sujeitos demonstram a existência de um significado oculto em Os Antediluvianos, de uma parábola em, Powhatan, de novas intenções em O Pintarroxo e de transcendentalismo em O Pequeno Polegar. Em resumo, ficou demonstrado que nenhum homem pode sentar-se a escrever sem uma profundíssima intenção. Dessa forma, poupa-se em geral muita perturbação aos autores. Um romancista, por exemplo, não precisa ter cuidado com a sua moral. Ela está ali, isto é, está em alguma parte, e a moral-e os críticos podem tomar conta de si mesmos. Chegado o tempo próprio, tudo o que o cavalheiro tencionava, e tudo o que ele não tencionava, será trazido à luz no Dial ou no Down Easter, juntamente com tudo o que ele devia ter tencionado e o resto que ele claramente pretendia tencionar; de modo que tudo dará certo no fim.
Não há razão, por consequência, para o ataque contra mim lançado por certos ignorantes, por eu nunca ter escrito um conto moral ou, em termos mais precisos, um conto com uma moral. Não são eles os críticos predestinados a me pôr em cena ou a desenvolver a minha moral: este é o segredo. A propósito, o North American Quarterly Hundrum fá-los-á envergonharem-se de sua estupidez. Entrementes, a fim de protelar a execução, a fim de mitigar as acusações contra mim, ofereço a triste estória junta, uma estória acerca de cuja evidente moral não poderá haver discussão alguma, desde que aquele que a procura possa lê-Ia nas letras garrafais que formam o título do conto. Eu mereceria aplausos por esse arranjo, bem mais inteligente que o de La Fontaine e de outros, que transferem o conceito até o último instante e assim o levam disfarçadamente até o cansativo fim de suas fábulas.
Defuncti injuria ne officiantur era uma lei das doze tábuas e De Pnortuis nil nisi bonum é uma excelente injunção, mesmo que o morto em questão não passe de um defunto joão-ninguém. Não é minha intenção, porém, vituperar meu falecido amigo Toby Dammit. Era um pobre-diabo que vivia como um cão, é verdade, e foi de uma morte de cão que morreu; mas não era digno de censura por causa de seus vícios.
Procederam duma deficiência natural da mãe dele. Ela fez o que pôde para castigá-lo, enquanto ainda pequeno, porque os deveres para sua. bem ordenada mente eram sempre prazeres, e as crianças, como as postas de carne dura ou as modernas oliveiras gregas, são as melhores de se bater. Porém, pobre mulher!, tinha a desgraça de ser canhota e uma criança surrada canhotamente o mais que podia ficar era canhotamente impune. O mundo gira da direita para a esquerda. Não se deverá, pois, açoitar uma criança da esquerda para a direita. Se cada golpe, na direção própria, lança fora uma má propensão, segue-se que cada pancada, numa direção oposta, soca para dentro sua parte de maldade. Estive muitas vezes presente aos castigos de Toby e, mesmo pelo modo com que era escoiceado, podia perceber que ele se estava tornando cada vez pior, dia a dia. Afinal vi, com lágrimas nos olhos, que não havia quase esperança alguma a respeito do velhaco, e um dia, quando fora ele surrado até ficar de cara tão preta que poderia ser tomado como um africaninho e nenhum efeito se produzira, a não ser o de fazê-lo retorcer-se até desmaiar, não pude mais conter-me e, caindo de joelhos imediatamente, ergui a voz para profetizar a sua ruína.
O fato é que a sua precocidade no vício era espantosa. Aos cinco meses de idade costumava enfurecer-se de tal sorte que ficava incapaz de gritar. Aos seis meses surpreendi-o mordendo um baralho de cartas. Aos sete meses tinha o hábito de agarrar e beijar os bebês fêmeas. Aos oito meses recusou-se peremptoriamente a pôr sua assinatura: num compromisso de Temperança. Assim continuou a crescer em iniquidade, mês após mês, até que, ao termo de seu primeiro ano, não somente teimou em usar bigodes, mas contraíra uma tendência a praguejar e blasfemar e a apoiar suas afirmativas por meio de apostas.
Foi em consequência desta última prática, nada cavalheiresca, que a ruína que eu havia predito a Toby Dammit alcançou-o afinal. O costume tinha "crescido com o seu crescimento e se fortificado com sua força", de modo que, quando se fez homem, dificilmente podia enunciar uma frase sem intercalá-la com uma proposta de jogo a dinheiro. Não que ele realmente fizesse apostas, não. Farei ao meu amigo a justiça de dizer que seria para ele mais fácil botar ovos. Com ele aquilo era uma simples fórmula, nada mais. Suas expressões neste particular não tinham significação alguma apropriada. 'Eram simples -se não mesmo inocentes expletivas —, frases imaginativas com que arredondar um período. Quando ele dizia: "Aposto com você isso e aquilo", ninguém jamais pensava em tomar a palavra ao pé da letra; contudo não podia eu deixar de pensar que era meu dever reprimi-lo. Aquele hábito era imoral e isso mesmo lhe disse. Era uma coisa muito vulgar, pedi-lhe eu que acreditasse. Era desaprovado pela sociedade... e aqui não disse senão a verdade. Era proibido por um decreto do Congresso... não tinha eu aqui a mínima intenção de dizer uma mentira. Admoestei-o... mas tudo em vão. Provei... mas inutilmente. Roguei... ele sorriu. Implorei... ele riu. Preguei... ele escarneceu. Ameacei... ele descompôs. Bati-lhe... chamou a polícia. Quebrei-lhe o nariz... assoou-se e apostou sua cabeça com o diabo que eu não ousaria tentar de novo a experiência.
A pobreza era outro vício que a típica deficiência física da mãe de Dammit tinha imposto a seu filho. Ele era detestavelmente pobre, e essa era, sem dúvida, a razão de tomarem suas expressões expletivas de apostas, raramente, o aspecto pecuniário. Não tenho dificuldade em afirmar que jamais o ouvi empregar uma linguagem como esta: "Apostarei um dólar com você." Dizia habitualmente; "Apostarei o que você quiser", ou "Apostarei o que você tiver coragem", ou "Apostarei com você uma bagatela", ou mesmo, mais significativamente ainda, "Apostarei minha cabeça com o diabo".
Esta última fórmula parecia agradar-lhe mais, talvez porque envolvesse menos risco, pois Dammit se havia tornado excessivamente parcimonioso. Tivesse-o alguém pegado pela palavra, como sua cabeça era pequena, sua perda seria também pequena. Mas estas são reflexões minhas e não posso absolutamente garantir que esteja certo no atribuí-Ias a ele. Em todo o caso, a frase em questão aumentava diariamente de predileção, não obstante a grande impropriedade de apostar um homem seus miolos como se fossem notas de banco, mas este era um ponto que a perversidade de ânimo de meu amigo não lhe permitia compreender. Por fim, abandonou ele todas as outras formas de aposta e entregou-se inteiramente à "Apostarei minha cabeça com o diabo", com uma pertinácia e exclusividade de devoção que me desagradava não menos do que me surpreendia. Sempre me desagradam as circunstâncias com que não posso contar. Os mistérios obrigam a gente a pensar e dessa forma fazem mal à saúde. A verdade é que havia qualquer coisa no ar com que o Sr. Dammit costumava exprimir sua ofensiva frase, algo na sua maneira de enunciá-la que, a princípio, me interessou, mas depois me deixava muito mal à vontade; algo que, à falta dum termo mais preciso no momento, deve ser permitido chamar de esquisito --mas que o Sr. Coleridge teria chamado de místico, o Sr. Kant panteístico, o Sr. Carlyle evasivo e o Sr. Emerson hiperexcêntrico. Comecei por não gostar daquilo absolutamente. A alma do Sr. Dammit achava-se em perigosíssimo estado. Resolvi pôr em jogo toda a minha eloquência para salvá-la. Fiz votos de servi-lo, como S. Patrício, na crônica irlandesa, diz-se que servira o sapo, isto é, "despertou-o para o sentido de sua situação". Pus mão à tarefa imediatamente. Mais uma vez entreguei-me à admoestação. Depois coligi minhas energias para uma tentativa final de censura amigável.
Terminada minha preleção, o Sr. Dammit entregou-se a um procedimento um tanto equívoco. Por alguns instantes permaneceu em silêncio, olhando-me simplesmente, de modo indagador, para o rosto. Mas depois lançou a cabeça para um lado e elevou as sobrancelhas o mais que pôde. Em seguida espalmou as mãos e encolheu os ombros. Depois piscou o olho direito. Depois repetiu a operação com o esquerdo. Depois fechou bem os dois. Depois arregalou-os ambos, de tal maneira que comecei a ficar seriamente alarmado com as consequências. Depois, aplicando o polegar ao nariz, achou por bem fazer um indescritível movimento com o resto dos dedos. Finalmente, pondo as mãos nos quadris, condescendeu em responder. Posso lembrar-me apenas dos pontos principais do que ele disse. Ficar-me-ia agradecido se eu contivesse minha língua. Não queria saber de conselhos meus. Rejeitava todas as minhas insinuações.
Tinha bastante idade para cuidar de si mesmo. Pensava eu que ele era ainda o bebê Dammit? Era intenção minha dizer qualquer coisa contra seu caráter? Pretendia insultá-lo? Era eu um maluco? Seria minha mãe conhecedora, em suma, de minha ausência do domicílio? Fazia-me esta última pergunta como a um homem de verdade, e se obrigaria a voltar para casa de acordo com a minha resposta. Mais uma vez perguntava, explicitamente, se minha mãe sabia que eu estava fora. Minha confusão -disse ele -me traía, e apostaria sua cabeça com o diabo que ela não sabia.
O Sr. Dammit não parou para que eu replicasse. Dando volta nos calcanhares, saiu de minha presença, com indigna precipitação. Foi bem que assim fizesse. Meus sentimentos tinham sido magoados. Até mesmo minha cólera havia despertado. Por uma vez sequer teria tomado a sério sua insultante aposta. Teria ganho para o arqui-inimigo a pequena cabeça do Sr. Dammit, pois minha mãe estava bem ciente de minha ausência, simplesmente temporária, de casa.
Mas Khoda shefa midehed — "o céu dá remédio" — como dizem os muçulmanos quando a gente lhes pisa nos pés. Fora no prosseguimento do meu dever que havia sido insultado e suportei o insulto como um homem. Parecia-me, agora, porém, que eu havia feito tudo quanto se podia exigir de mim no caso daquele miserável indivíduo e resolvi não mais incomodá-lo com meus conselhos, mas deixá-lo entregue a si mesmo e à sua consciência. Mas embora me abstivesse de intrometer meus conselhos, não lograva desligar-me totalmente de sua companhia. Fui ao ponto de acomodar-me a algumas de suas menos repreensíveis tendências e vezes houve em que me achei elogiando seus perversos gracejos (como fazem os epicuristas com a mostarda, com lágrimas nos olhos), tão profundamente me afligia ouvir sua conversa depravada.
Um belo dia, tendo saído a passear juntos, de braços dados, nosso caminho nos levou à direção de um rio. Havia uma ponte e resolvemos atravessá-la. A ponte estava coberta, protegida contra as intempéries, e a passagem abobadada, com poucas janelas, era por isso incomodamente escura. Ao penetrarmos na passagem, o contraste entre o brilho exterior e a escuridão interna chocou-se pesadamente contra meu espírito. O mesmo não aconteceu ao infeliz Dammit, que se prestara a apostar com o diabo a cabeça, que eu havia desancado. Mostrava-se ele dum bom-humor incomum. Estava excessivamente animado, tanto que passei a considerar que havia um não sei quê de incômoda suspeita. Não era impossível que estivesse ele afetado por algo de transcendental. Não sou bastantemente versado, porém, no diagnóstico dessa doença, para falar com segurança a respeito do assunto. E infelizmente não se achava ali presente nenhum de meus amigos do Dial. Sugiro a ideia, não obstante, por causa de certas espécies de austera bufonaria que pareciam dominar meu pobre amigo, forçando-o a portar-se como um palhaço de si mesmo. Nada o satisfazia senão mover-se e saltar em redor, acima e abaixo de tudo quanto encontrava em seu caminho, ora gritando, ora ciciando toda casta de estranhas palavras, grandes e pequenas, conservando, no entanto, todo o tempo o rosto mais grave do mundo. Na realidade, não sabia se deveria dar-lhe pontapés ou ter piedade dele. Afinal, tendo quase atravessado a ponte, aproximávamos-nos do termo do caminho para pedestres, quando fomos barrados por um torniquete de certa altura. Passei por ele sossegadamente, fazendo-o girar como de costume. Mas essa volta não servia ao Sr. Dammit. Teimou em pular o torniquete e disse que poderia saltar por cima dele, de pés juntos no ar.
Ora, isso, conscientemente falando, não achava eu que ele pudesse fazer. O melhor saltador de pés juntos, em todos os estilos, era meu amigo o Sr. Carlyle, e como eu sabia que ele não podia fazê-lo, não acreditava que Toby Dammit o fizesse. Por isso lhe disse, em breves palavras, que ele era um fanfarrão e não podia fazer o que dizia. Razão tive depois de me entristecer disso, porque ele imediatamente se ofereceu a apostar sua cabeça com o diabo como o faria.
Estava a ponto de replicar, não obstante minhas anteriores resoluções, com certa rispidez, contra sua impiedade, quando ouvi, bem perto de meu cotovelo, uma leve tosse que soou bem parecida com a pronúncia da interjeição "ei!". Dei um pulo e olhei em torno de mim com surpresa. Meu olhar caiu afinal sobre um canto da armação da ponte e sobre a figura de um velhinho coxo, de venerável aspecto. Nada poderia ser mais reverenda que toda a sua aparência, pois não somente usava um terno preto, mas sua camisa era irrepreensivelmente limpa e o colarinho caía-lhe bem polido sobre uma gravata branca. O cabelo tinha-o repartido ao meio, como o de uma moça. Suas mãos estavam entrelaçadas reflexivamente sobre o estômago e os olhos cuidadosamente erguidos para o alto.
Observando-o mais atentamente, notei que usava um avental de seda preta sobre os calções, coisa que achei bastante estranha. Antes, porém, que tivesse tempo de fazer qualquer reparo a respeito de tão singular circunstância, ele me interrompeu, com um segundo "ei!".
Eu não estava imediatamente preparado para replicar a essa segunda observação. O fato é que advertências de tão lacônica natureza são quase irrespondíveis. Sei de uma revista trimestral que foi emudecida com a palavra "Palavrório!". Não me envergonho de dizer, portanto, que me voltei para o Sr. Dammit a pedir auxílio.
— Dammit — falei —, que é que você fez? Não ouve o cavalheiro dizer "ei!"?
Olhei desabridamente para meu amigo, enquanto assim me dirigia a ele; porque, para falar verdade, eu me sentia particularmente perplexo, e quando um homem está particularmente perplexo deve franzir as sobrancelhas e parecer selvagem; de outro modo, pode estar perfeitamente certo de que parecerá um louco.
— Dammit! — continuei (isso soava, entretanto, mais como uma praga, coisa que estava mais longe do que tudo do meu pensamento).(2) Dammit — acrescentei —, este cavalheiro está dizendo "ei!".
Não tento defender minha observação com relação à sua profundeza; nem eu mesmo a considerei profunda; mas notei que o efeito de nossas palavras nem sempre é proporcional a sua importância a nossos próprios olhos. Se eu tivesse lançado ao Sr. Dammit, de modo completo, uma bomba de Paixhans (3), ou se lhe tivesse atirado à cabeça o Poetas e Poesia da América (4), ele mal poderia ter ficado mais desconcertado do que quando me dirigi a ele, com estas simples palavras: "Dammit! Que é que você faz? Não ouve o cavalheiro dizer "ei!"?"
— Que é que você diz? — arquejou ele, afinal, depois de mudar mais de cores do que o faria um pirata, uma depois da outra, quando perseguido por um navio de guerra. -Você tem absoluta certeza de que ele disse "isso"? Bem, afinal de contas eu estou metido nisso agora e muito bem podemos enfrentar o caso a frio. Lá vai, então... "ei"!
Aí o velho sujeitinho parecia satisfeito, só Deus sabe por quê. Deixou seu lugar no canto da ponte, coxeou para frente com gracioso ademane, pegou da mão de Dammit e sacudiu-a cordialmente, olhando-o todo o tempo, fixamente, no rosto, com o aspecto da mais inalterada benignidade que é possível ao espírito do homem imaginar.
— Estou completamente certo de que você ganhará, Dammit — disse ele, com o mais franco de todos os sorrisos —, mas somos obrigados a fazer uma experiência, você sabe, por simples formalidade.
— Ei! — replicou meu amigo, tirando o paletó, com profundo suspiro, amarrando um lenço em torno da cintura e produzindo uma indizível alteração no seu aspecto, com fazer-se zarolho e abaixar os cantos da boca. — Ei! e ei! — disse ele de novo, depois de uma pausa, e nenhuma outra palavra além de "ei!", ouvi-o eu dizer mais depois disso.
— Ah! — pensei eu, sem exprimir-me em voz alta. — Este silêncio é completamente extraordinário da parte de Toby Dammit, e não é mais do que consequência de sua verbosidade em ocasião anterior. Um extremo induz a outro. Ter-se-ia ele esquecido das numerosas perguntas irrespondíveis que me propôs tão fluentemente no dia em que lhe fiz a minha última preleção? Afinal de contas, está ele curado de seu transcendentalismo.
— Ei! — aqui replicou Toby, justamente como se tivesse estado lendo meus pensamentos e parecendo um velho carneiro a devanear. O velhote agarrou-o então pelo braço e levou-o mais para dentro da escuridão da ponte, poucos passos além do torniquete.
— Meu bom amigo — disse ele —, faço questão de lhe dar distância. Espere aqui, até que eu tome lugar junto ao torniquete, de modo que possa ver se você pula por cima dele, bela e transcendentalmente, e não omite nenhum dos floreios do pulo de pés-juntos.
Simples formalidade, como você sabe. Eu direi — um, dois, três e... "larga!". Preste atenção! Corra quando ouvir a palavra "larga!". Então tomou posição junto do torniquete, parou um instante como se estivesse em profunda reflexão, depois olhou para cima e, pensei eu, sorriu mui de leve; em seguida, agarrou os cordéis do avental, lançou depois um longo olhar para Dammit e, finalmente, pronunciou as palavras combinadas:
— One... two... three... e... away! (5) Pontualmente, ao ouvir a palavra "larga!", o meu pobre amigo lançou-se em impetuoso galope. O estilo do salto não foi muito alto como o do Sr. Lord,s nem também muito baixo como o dos críticos do Sr. Lord; mas, no conjunto, posso assegurar que ele se sairia bem. E que sucederia se ele não o fizesse? Ah, essa era a questão! Que sucederia?
— Que direito — disse eu — tinha o velhote de obrigar qualquer outro cavalheiro a pular? Aquele velho manquitola! Quem era ele? Se me pedisse para pular, eu não o faria, está claro, e não me importava que diabo fosse ele.
A ponte, como eu disse, era abobadada e coberta de maneira muito ridícula, tendo sempre um eco muito incômodo, um eco que eu nunca antes observara tão particularmente como quando pronunciei as quatro últimas palavras de minha observação.
Mas o que eu disse, ou o que eu pensei, ou o que eu ouvi, ocupou apenas um instante. Em menos de cinco segundos, após sua partida, o meu pobre Toby tinha dado o pulo. Eu o vi correndo agilmente, alçando-se grandiosamente do soalho da ponte, traçando os mais espantosos floreios com as pernas, enquanto subia. Vi-o alto no ar, pulando admiravelmente, de pés juntos, por cima do torniquete, e, sem dúvida, pensei que era uma coisa insolitamente singular que ele não continuasse o pulo. Mas o pulo inteiro fora questão de momento. E antes que tivesse tempo de fazer qualquer profunda reflexão, o Sr. Dammit recuou para baixo, completamente de costas, no mesmo lado do torniquete, de onde havia partido. No mesmo instante, vi o velhote coxeando, no auge da velocidade, apanhar e enrolar no seu avental algo que caiu pesadamente nele, da escuridão do arco, justamente por cima do torniquete. Fiquei bastante atônito, diante de tudo isso; mas não tive tempo de pensar, porque. Dammit se conservava particularmente silencioso, concluindo eu que ele deveria estar muito magoado e necessitava de meu auxílio. Corri para o seu lado e descobri que ele havia recebido o que pode ser chamado de uma séria injúria. A verdade é que ele tinha sido privado de sua cabeça, a qual, depois de acurada procura, não pude encontrar em parte alguma. De modo que me decidi a levá-lo para casa e chamar os homeopatas.
Entrementes, um pensamento me abalou e eu escancarei uma janela da ponte, quando a triste verdade imediatamente cruzou-me o espírito. Cerca de metro e meio, justamente acima da extremidade do torniquete e cruzando o arco do passeio, como que formando um gancho, estendia-se uma lisa barra de ferro, colocada horizontalmente e que era de uma série de barras que serviam para reforçar a estrutura, em toda a sua extensão. Com a extremidade desse gancho é que pareceu evidente ter-se posto o pescoço de meu infortunado amigo precisamente em contacto.
Não sobreviveu ele muito tempo à sua terrível perda. Os homeopatas não lhe deram suficientes dosezinhas de remédio e o pouco que deram ele hesitou em tomar. De modo que, no fim, piorou e veio a morrer, dando assim uma lição a todos os viventes desregrados. Orvalhei-lhe o túmulo com minhas lágrimas, esculpi urna barra sinistra no escudo da família e, quanto às despesas gerais do enterro, enviei minha muito moderada conta aos transcendentalistas. Os velhacos recusaram-se a pagá-la, de modo que tive de desenterrar imediatamente o Sr. Dammit e vendê-lo para comida de cachorro.
Notas
(1) Publicado pela primeira vez no Graham's Lady's and Gendeman's Magazine, setembro de 1841. Título original: Never bet your head. A moral tale.
(2) Trocadilho com a expressão damn it, "dane-se" ou "vá para o inferno" (N. T.)
(3) General francês, inventor de vários engenhos bélicos. (N. T.)
(4) Antologia de autoria de Rufus Wilmot Griswold, pastor protestante que se desaveio, certa vez, com Edgar A. Poe. (N. T.)
(5) Um... dois... três... e... larga! (N. T.)
(6) Poeta contemporâneo de Poe, de escassa notoriedade. (N. T.)


Por Amanda Rocha e Priscila Biancardi

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Especial Edgar Allan Poe: Seleção de contos - parte 1


Como havíamos prometido na resenha de Medo Clássico do Edgar Allan Poe aqui, estamos trazendo hoje o início de um especial do autor com a seleção de seus melhores contos. O conto que trazemos hoje é "O gato preto", de 1843. Espero que gostem!


O gato preto - Edgar Allan Poe


Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas consequências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais. Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato. Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento. Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua. Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor. Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna —, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera. Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano -uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero. Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito — entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma sequência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minúcia, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal. Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa —, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via. Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então frequentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo. Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito. Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes. Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher. De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que -não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos -muito gradativamente —, passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste. Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros. No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se entre minhas pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo —, pelo pavor extremo que o animal me despertava. Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira.
Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso —, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte! Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração! Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, frequentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher — pobre dela! — não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas. Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido. Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de ideia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma ideia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas. Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranquila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma. Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura. No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.
— Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada —, é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? —, estas paredes são de grande solidez. Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração. Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação. Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes. Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!


Por Amanda Rocha e Priscila Biancardi

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